Mudanças climáticas afetarão extrativismo na Amazônia, de acordo com pesquisa brasileira

Nos próximos 30 anos, as populações tradicionais da Amazônia que dependem da floresta como principal forma de alimentação e sustento econômico poderão sofrer sérios impactos devido às mudanças climáticas. Um estudo desenvolvido por pesquisadores de cinco universidades públicas brasileiras avaliou esses potenciais impactos e aponta que as mudanças climáticas representam uma ameaça às espécies de palmeiras e árvores que são os principais produtos florestais extraídos nas reservas extrativistas (Resex) da Amazônia brasileira.

“Isso representa um perigo iminente à manutenção do modo de vida das populações tradicionais e ao futuro da biodiversidade na Amazônia. Entre os produtos que correm risco de desaparecer ou diminuir a produção nas reservas extrativistas brasileiras estão a castanha-do-pará, o açaí, a andiroba, a copaíba, a seringueira, o cacau e o cupuaçu”.

Neste estudo foram avaliadas 18 espécies de árvores e palmeiras utilizadas para consumo próprio ou venda, em 56 reservas extrativistas da Amazônia brasileira. A partir de modelos computacionais, foram avaliados fatores climáticos históricos dos locais onde essas plantas vivem (temperatura, umidade, tipo de solo, dentre outras) e realizadas projeções para o ano de 2050, considerando as mudanças climáticas previstas pelos cientistas baseadas nas taxas de emissão de CO2. Os autores também fizeram o levantamento do número de pessoas e famílias envolvidas com as atividades de extrativismo vegetal realizadas nessas Resex e quais espécies eram utilizadas por elas.

Foto de arquivo: Samuel Alvarenga/Secom

Principais resultados

Os resultados indicam que, nos próximos 30 anos, as regiões climaticamente adequadas para o extrativismo desses produtos florestais terão reduzida em até 91% sua área total. As áreas mais ameaçadas são o Sul e o Sudoeste da Amazônia, regiões que atualmente já sofrem com queimadas, mineração e desmatamentos ilegais, como o estado de Rondônia, o Sul do estado do Pará e o Norte do Mato Grosso.

A pesquisa aponta que as alterações climáticas previstas podem, em até 30 anos, reduzir a distribuição natural de 11 espécies nativas, e nove podem até mesmo desaparecer das reservas extrativistas onde elas são exploradas. Isso porque as mudanças climáticas interferem, por exemplo, na temperatura e distribuição das chuvas, fazendo com que as condições climáticas necessárias para a ocorrência dessas espécies nas reservas deixem de existir. Ainda de acordo com os resultados, 21 Resex podem perder uma ou mais espécies exploradas, enquanto quatro reservas, localizadas no estado de Rondônia, podem perder todas as espécies que são exploradas atualmente.

Para os pesquisadores, se administradas de maneira correta, as Unidades de Conservação de uso sustentável, como as Resex, podem atrair e manter diversas atividades econômicas ao longo do tempo, contribuindo para o crescimento econômico das regiões em que estão localizadas e para a conservação da biodiversidade.

Os autores apontam que a potencial extinção local de algumas espécies de plantas nas RESEX da Amazônia brasileira pode piorar a pobreza, potencialmente levando a um êxodo de povos tradicionais para as áreas urbanas e um aumento nas taxas de desmatamento nessas áreas protegidas no futuro.

O estudo sugere estratégias para mitigar as consequências das mudanças climáticas na Amazônia, como ações eficientes no combate ao desmatamento e às queimadas na região. Também indica a implementação das orientações resultantes dos acordos globais de combate à mudança climática.

Fonte: Comunicação/Ufopa e foto: Pedro Guerreiro/Agência Pará

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